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terça-feira, 8 de setembro de 2015

No ponto de ônibus

 
 
hoje tive consulta médica. Minha mãe estava usando o carro, então fui de ônibus.
Cheguei na parada e me sentei. tinha uma mulher lá também. Passaram, sem brincadeira, 4 zebrinhas com o mesmo destino (sudoeste, esplanada) em menos de 10 minutos.
e nenhum w3! Fico puto com isso.
por acaso, olhei pro lado e vi uma mão segurando no ponto de ônibus. e logo após essa mão veio um senhor, com os beiços inchados.
ele me cumprimentou com um aceno de cabeça e veio pra debaixo do ponto, se protegendo do sol.
eu me afastei e ele pôde sentar-se ao meu lado
eu abracei minha mochila e fiquei olhando pro local de onde viria o ônibus.
daí senti uma cutucada
era ele, me perguntando algo que eu nao compreendi.
pedi pra ele repetir e ele disse
"qual a primeira coisa que você faz quando acorda?"
eu pensei por uns 2 segundos e disse: abro os olhos?
ele: isso msm. tem gente que diz que vai ao banheiro ou que escova dentes,
Mas como? de olhos fechados é que nao é!
ele seguiu
qual a parte da mulher que cheira a bacalhau?
e eu: o nariz!
ele: boa! Tem gente que pensa coisa impura nessa! mas você tá certo. É o nariz
E continuou: se você tá dirigindo um ônibus, sobrem 30, descem 14, Qual o nome do motorista?
eu sabia essa. Mas pedi pra ele repetir.
ele repetiu, acentuando o VOCÊ
e eu fingi que pensava... pedi pra ele repetir de novo
ele novamente acentuou o você
daí eu fiz que descobria! Mas sou eu, uai!
ele sorriu, com os lábios inchados.
e engatou em outra: tem três ilhas. Em cada ilha três palmeiras. Cada palmeira 7 cocos. Quantos cocos têm?
eu sabia que palmeira nao dava coco, mas respondi
ah! odeio fazer conta de cabeça! só pegar uma calculadora e multiplicar
e ele, triunfante: palmeira não dá coco!
nao tem nenhum!
e logo depois me perguntou: qual a primeira coisa que você faz ao acordar?
daí eu olhei pra moça ao meu lado
ela sorriu um sorriso quieto. triste.
e ele: me diz! presta atençao. qual a primeira coisa que você faz ao acordar?
eu respondi: escovo os dentes

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Azul





Era difícil. Um desafio como nunca antes tinha enfrentado. Eu sabia que naquela quinta não teria jeito. Ela não ia acreditar nas minhas desculpas. É que eu já tinha dito algumas vezes que estava doente e que não podia ir.
E como isso fez você se sentir?
Era como se eu tivesse um destino. Algo inevitável. Uma condenação.
Prossiga.
Eu cheguei, me troquei e fui. Todos me olhavam. Eu sentia isso, que todos me olhavam. Por eu ter faltado os dias anteriores, não tinha aprendido com todo mundo. Eu teria que dar meu primeiro salto na frente de todos. Eu, sem nunca ter saltado, não tinha como escapar.
E como foi?
A gente tinha aula normal e guardava a última meia hora pra ir pra piscina funda. Lá que tinham os trampolins. As crianças subiam no trampolim, enfileiradas. Não tinha como ir pra trás. Uma vez na fila, subindo a escada, não tinha como ir pra trás. Todo mundo subia e pulava. Fazia frio, por causa do vento, e todo mundo preferia pular rápido pra estar de volta na água. No quente da água.
Sim...
Me lembro que via cada um pulando. Cada pulo significava um a menos. Eu sentia frio na barriga, mãos geladas. Queria sair correndo. Queria me esconder. Chegou minha vez e eu fui. Fiquei na borda. Coloquei meus pés, com os dedos pra fora. O vento me fazia tremer, com os pelos arrepiados. Eu vi que minha mãe estava na grade da piscina. Ela sorria. O professor falava algumas coisas, mas eu não escutava. A criança que tinha pulado antes de mim já tinha nadado pra longe.
E então?
Lá em baixo era só azul. Só azul. Eu não conseguia. O medo era demais, não conseguia pular. Todos os olhos em mim e eu não conseguia pular.
O quê aconteceu?
Fui pra casa e nunca mais voltei pra aula. Nunca mais.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

The Storyteller







By Rebeca Sahagun



I remember our first conversation (I always do with special people). He asked – Hey! And you...where are you from?
– 
Mexico, I replied.
We were on the subway, line U6. This happened while waiting for the train. He told me he studied law, now he wanted to try something else. I think public policy was about trying something else, discovering new things.
He did discover that something else, but not at school. Usually important things are not learned in the classroom.
I saw the transformation from Plan B to action, from a blog to a novel, from a hobby to a lifestyle. He is not a lawyer, he is a storyteller. He could talk about academics, a party, a daily routine and make them sound interesting with a beginning, a middle and an end, as storytellers do. Storytellers make words convert into characters, landscapes, fragrances and so on. They have the power to transport you to other perspectives, other lives, other places and other times. It is about playing with the imagination, with the possibilities of other ways, of saying ‘no’ instead of ‘yes’ or vice versa, of having more than one life, more than one death.
As the storyteller is creating the story a process of revelation begins. It starts with wanting to tell your story, then the other version, followed by the third character witness and finally unraveling in a world of no limitations, where one can be a boy living in a farm in the 19th century, a housewife cheating on her husband in some suburb, a painter in the highest peak of his career.
From mouth, to paper, to me, the storyteller was inspiration. Thank you! 


PS: This text is a gift I got from my friend Rebeca Sahagun... It meant a lot to me to know she spent time generating, dreaming and writing those lines. Thank you, Rebeca!

sábado, 14 de junho de 2014

Os Alquimistas





- To sem abridor de garrafas. Abre a cerveja pra mim?
- Mas é claro! Dois anos aqui me ensinaram pelo menos isso!
Ele pegou a garrafa da mão dela e a abriu usando a sua.
- Aqui. Agora só preciso achar um cantinho pra abrir a minha cerveja... - ele disse, enquanto procurava por qualquer beirada de um muro ou cerca onde pudesse fazer a mágica.
- Pronto, acho que aqui eu consigo...
E ele tentou uma, duas, três vezes até que que a tampa da garrafa finalmente caiu em algum lugar do jardim perto da cerca.
- Vem cá, amigo. Senta. Eu quero aproveitar sua companhia. A gente não tem muito tempo... Prost!
- Prost! - ele respondeu, olhando em seus olhos.
Ele se sentou do lado dela, nos degraus da escada da Casa de Consertos. Eles estavam em Gendarmenmarkt, Berlim. O vento estava frio e o sol já tinha ido embora, apesar de ser só 5 da tarde.
- Nossa, nem acredito que esses dois anos passaram tão rápido! Já é quase Março e logo a gente já vai ter terminado tudo! Todo mundo vai embora de volta pros seus países ou então pra outros lugares... Berlim vai ficar bem vazia - ela disse.
- Não é? O tempo tá passando muito rápido! Eu não me lembro de ser assim quando a gene era criança!
- Pois é! Eu me lembro que demorava pra sempre pra chegar o Natal ou a Páscoa... O meu Adventskalender demorava uma eternidade pra passar!
- Hahaha! Adventskalender... Outra coisa boa que aprendi aqui na Alemanha. Ah, e obrigado por ter me dado um ano passado.
- De nada - ela disse, com um sorriso nos lábios.
Eles tomaram um gole de cerveja.
- E aí? Como foi? Quer falar sobre isso? - ele perguntou.
- Hum... Claro, claro.
- Ok. Sou um ótimo ouvinte - disse, enquanto tomava outro gole de cerveja.
- Então... Ele queria conversar. Queria se explicar, falar de nós dois, falar do nosso futuro...
- Uhum...
- Ele começou me dizendo o quanto me amava e quanto ele queria estar comigo. Me disse que estava arrependido e que ia mudar. Que tudo que eu tinha conversado com ele no passado... Ele finalmente tinha entendido e ia tentar mudar. Que era só eu falar pra ele o que fazer, que ele faria.
- E você?
- Eu.. Eu só escutei. Foi bem difícil, sabe? Eu olhava pra ele... Não é que eu o odeie ou algo assim. Eu ainda gosto dele e quero que ele seja feliz. Não to magoada. Mas o amor que eu sentia... Acabou. Eu disse isso pra ele, mas foi muito difícil. Ele chorou. Eu chorei - ela disse, com lágrimas nos olhos.
- E como você tá se sentindo agora?
- Péssima! Tem essa coisa aqui - ela apontou pro seu coração - que não tá certa. Eu... Eu sinto como se eu estivesse fazendo algo de errado com ele, apesar de saber que não estou - ela começou a chorar - É muito pesado.
- Oh, querida, vem cá, chora não - e ele a trouxe pra perto, abraçando-a - Eu acho que posso te ajudar.
Ele se levantou e estendeu a mão esquerda em sua direção - Vamos? - ela aceitou o convite e se deixou ser levada na direção de um jardim lá perto. O vento estava gelado e ela soltou de sua mão pra proteger suas mão no bolso.
- Ei, aonde você está me levando?
Ele não respondeu. Eles chegaram no meio do jardim, próximo a uma árvore alta, em suas sombras.
- Hummm... Acho que aqui tá bom. Será que alguém consegue ver a gente aqui? - ele perguntou.
- Sei lá... Acho que sim. Mas só se prestarem muita atenção - ela disse, limpando uma lágrima que teimava em cair em sua bochecha - O que você vai me mostrar?
- Aqui, segura isso aqui - ele a entregou sua garrafa e abriu sua mochila.
- Eu to ficando curiosa... - ela disse, tentando parecer mais interessada.
- Rapidinho... Rapidinho... Segura isso pra mim? - disse, enquanto entregava a ela um pacote de biscoitos e uma garrafa vazia de coca-cola - Ai, eu carrego muita coisa comigo! Hahaha... Onde tá? Onde tá? Aqui! Achei! - ele comemorou enquanto tirava de sua mochila uma bolinha - Agora me devolve essa tranqueira toda.
Ele guardou tudo de volta na mochila e pegou sua cerveja de volta.
- Vamos lá, esse é o segredo. Tudo que você tem de fazer é mudar as coisas. Transformá-las. É você que dá o peso pras coisas. Nada é leve ou pesado por si mesmo - disse, enquanto jogava a bolinha pro alto, como se fosse uma bolinha de pingue pongue. Uma bolinha de pingue pongue cinza - se você aprender a controlar, você conseguirá transformar o peso das coisas.
- Ai, tá de brincadeira, né? Você sempre foi engraçadinho! - Ela disse enquanto se levantava e começava a andar de volta - Vamos! Você já me animou. Captei a mensagem. Mas vamos sair do escuro, vem!
- Ei, é verdade! Tá acreditando não? Então pega! - E ele jogou a bolinha a ela.
Ela fez um gesto automático pra pegar a bolinha de pingue pongue. Mas quando ela a alcançou, ela percebeu que a bolinha era muito pesada. Tão pesada que quase a fez perder seu equilíbrio e derrubar sua cerveja.
- Nossa! Do que é feito isso? - ela perguntou ao deixar a bolinha cair no chão - Isso é feito de chumbo?
- Acertou de primeira! Parabéns! Agora volta aqui pra mim. Senta aqui comigo.
Ela pegou a bola e caminhou em sua direção, com olhos incrédulos. Que tipo de brincadeira era aquela? Ela ainda se sentava quando ele começou a explicar.
- É assim que se faz... - ele colocou a bolinha entre eles, no chão - Que nem eu te disse, as vezes a gente não percebe, mas as coisas não são leves ou pesadas por si - ele tomou suas mãos e colocou a bolinha em uma delas - nós que enxergamos as coisas de uma maneira ou de outra e decidimos como elas existirão pra nós - então ele colocou uma de suas mão em cima da mão dela, englobando a bolinha, metade a mão dele, metade a mão dela - eu tenho certeza que você já se perguntou se o seu azul é o mesmo azul que o meu. Se talvez o que eu vejo como azul é o seu vermelho. Todo mundo pensa nessas coisas. Todos se perguntam essas coisas porque está dentro de nós. Temos esse potencial adormecido de criar nosso redor - ele pegou sua outra mão e a colocou no outro lado da bolinha - Quando somos crianças e vemos as coisas pela primeira vez, nós decidimos como elas vão ser pra nós. E se conseguimos decidir quando somos crianças, também conseguimos fazer o mesmo agora. A gente que decide! - ele apertou as mãos dela em volta da bolinha - A gente!
Ela segurava a bolinha e conseguia sentir seu peso.
- Fala sério... Ela continua pesada - ela disse, incrédula.
- Só tenta, vai. Volta... Volta pro seu passado, pra sua infância. Tenta decidir o quão pesado uma bolinha de chumbo realmente é. Só tenta. Acredita em mim.
Ela fechou seus olhos e tentou. Se lembrou de sua infância. De sua mãe a deixando na creche. Do fim de semana em que sua família acampou perto da praia. Ela se lembrou de segurar a mão de seu pai, enquanto andavam num domingo ensolarado... Estavam indo comprar sorvete. Ela conseguiu se lembrar perfeitamente de como gostou de sentir os raios solares em sua pele e especialmente como ela gostou do cheiro que sua pele tinha depois de tomar sol por alguns minutos. Ela se lembrou de vivenciar isso e de gostar pela primeira vez. E ao pensar nessa memória, ali, naquela noite fria de Berlim, ela começou a sentir o sol em sua pele. Ela conseguiu sentir a mão de seu pai em sua mão. Conseguia sentir a mesma segurança que só as crianças conseguem ter, quando estão abertas a tudo e a todos, abertas a provar qualquer coisa que aparecer pela frente. Ela sentiu tudo. Mesmo que apenas por alguns segundos, ela sentiu isso tudo. E então, desse jeito, a bolinha em suas mão se tornou leve, como se fosse uma bolinha de Ping-Pong.
Ela abriu seus olhos e viu seu amigo sorrindo de volta.
- E aí? Conseguiu? - Perguntou esperançoso.
- Sim! - ela disse triunfante - Consegui! - E ela jogou a bola de chumbo pro ar, como se fosse uma bolinha de Ping-Pong - Que máximo! E dá pra fazer com qualquer coisa? - Ela perguntou, enquanto brincava com seu brinquedinho novo.
- Ah, acho que sim... Quase tudo... - ele explicou - Eu acho que tudo pode ser transformado em sua versão light - ele disse rindo - Mas será que a gente quer isso? Assim, acho que tem coisas que precisam ser pesadas, né? Se não tudo flutuaria... - E soltou uma outra risada.
- Faz sentido, faz sentido.
- Mas o importante é você saber que você pode fazer isso... E aí você que decide quando.
Ela veio e o abraçou de um jeito estranho. Como eles estavam sentados no chão, eles quase rolaram e caíram. Ele foi pego de surpresa e derrubou sua garrafa no chão.
- Ei, ei, ei! Sem desperdiçar a cerveja! - disse, enquanto pegava a cerveja caída.
- Obrigada! Muito obrigada por essa conversa! - ela disse, e estendeu a mão, devolvendo a bolinha.
- Não precisa agradecer... E pode ficar com a bolinha. É um Geschenk.

Para Anne Marie. Minha amiga.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

The Alchemists






- I don't have a bottle opener. Could you open my beer?
- But of course! Two years here have taught me at least that!
He took her beer bottle and opened it using the top of his.
- Here you go. Now I just need to find a corner where I can open mine... - he said, while searching for any sharp corner of a wall or a fence where he could do it.
- This will do the trick...
And he tried once, twice, three times until the top of his bottle finally popped up and fell near the garden fence.
- Come here, sweetie. Sit. I wanna enjoy your company, since we don't have much time together - she told him - Prost!
- Prost! - he said, looking in her eyes.
He sat at the steps of the concert house next to her. They were in Gendarmenmarkt, Berlin. The wind was chill and the sun was almost gone, even thought it was only 5 pm.
- You know, I can't believe these two years have passed so fast. It is almost March and soon it will be all done. Everybody will go back to their countries or move to different ones. Berlin will feel empty - she said.
- I know! Time is going by so fast! I don't remember it being like this when I was young!
- Right? It took forever to get to Christmas or Easter... I remember my Adventskalender took forever to pass!
- Hahaha! Adventskalender... Another cool thing I will bring home from Berlin. Thanks for the one you gave me, by the way.
- You are welcome - she said, with a smile on her lips.
They both took a sip of their beers.
- How did it go? Do you want to talk about it?
- Well... Yes, yes.
- Ok. I'm all ears - he said and took another sip of beer.
- So... He wanted to talk to me. He wanted to explain himself, talk about us, talk about our future.
- Yes...
- He started telling me how much he loved me and how much he wanted to be with me. He told me he was gonna change. Everything I had told him in the past... He finally got it and he would try to change. He would do whatever I wanted.
- And you?
- I just... I just listened. It was hard you know? I looked at him and... It's not like I hate him or anything. I still care for him and want him to be very happy. But the love I had... It is over. I told him, but it was very hard. He cried. I cried - she said. Her eyes were getting watery
- And how do you feel now?
- I feel terrible. There is this thing here - she pointed at her heart - that just doesn't feel right. I... I feel like I am doing something bad to him. Even though I don't know what. - she was crying - It is heavy.
- Oh, baby, come here - he brought her closer and have her a warm hug.
- It hurts. It hurts very much. I don't think I can carry it.
- Come on, don't cry - he told her, holding her even closer - I think I can help you.
He stood up, grabbed her hands and took her in the direction of a garden nearby. The cold wind was a bit stronger there, so she put her hands in her pockets. 
- Hey, where are you taking me?
He didn't answer. They went to the middle of the garden, next to a big tree, in the shadows.
- Hummm... I think this is a good spot. Do you think anyone can see us?
- I guess... But only if they really pay attention - she said as she cleaned one stubborn teardrop that insisted in coming down her cheeks - What are you gonna show me?
- Here, hold this - he gave her his beer bottle and reached for his backpack.
- I'm getting curious... - she tried to be more cheerful.
- Just a second... Just a second... Would you please hold this as well? - he said, while handing her a bag of cookies and an empty bottle of coke - I carry too much stuff with me! Hahaha... Where is it? Where is it? Oh, here it is! - he cheered as he took out of his bag some kind of ball - Now give me back all this stuff.
He put everything back to his backpack and took the beer bottle back.
- So, this is the secret. All you have to do is to change things. To transform them. You are the one who give stuff their heaviness. Things are not heavy or light per se - he said, as he threw the ball to the air, like if it were a Ping-Pong ball. A gray Ping-Pong ball - if you learn to control it, you will be able to make things as heavy or as light as you want.
- Are you kidding me, sweetie? You have always been funny! - She said as she turned back and started walking away - Come on! You already cheered me up. I got the point. Now let's leave the dark, come!
- Hey, it is true! Don't you believe? Catch! - And he threw the ball to her.
She did and automatic gesture to catch the Ping-Pong ball. But when it reached her hand she realized it was very heavy. It almost made her loose her balance and drop her beer.
- Wow! What is that? - She asked while dropping the ball on the ground - is this made of lead?
- You got it on the first try! Congrats! Now come back here, sit with me.
She took the ball and walked in his direction, with disbelief in her eyes. What kind of funny joke was that? As she sat, he started explaining.
- This is how you do... - he placed the ball between them, on the ground - You know, as I told you, we often don't realize, but things are not heavy or light per se - he took her hands and placed the ball on one of them - we are the ones who see things in a manner and decide how they exist for us - then he took one of his hands and placed over her hand, creating a cocoon around the ball, half her hand and half his hand - I'm sure you have asked yourself if you blue is he same blue as mine. If maybe what I see as blue is your red. Everyone thinks this at some point. Everyone asks those questions because inside us there is this sleeping power, this potential to create our surrounding - he took her other hand and put it on the other side of the ball - When we are children and see things for the first time, we decide how they will be for us. If we decided it then, we can decide it now. We decide it, girl - He pressed her hands around the ball and took away his, making her hold it alone - We.
As she held the lead ball she could still feel its weight.
- Come on... It is still heavy - she said in disbelief.
- Just try it. Go back... Try deciding again how much heavy a lead ball really is. Just try it. Trust me.
She closed her eyes and tried to do it. She remembered of her childhood. Of her mom dropping her by the Kita. Of the weekend when they camped on the beach. She remembered of holding her father's hand when walking on a sunny Sunday to eat some ice cream. And... And this last thought did the trick. She could remember vividly how much she enjoyed feeling the sun on her skin for the first time and specially, how much she liked how her skin had a different smell after being for a while on the sun. She remembered of understanding that feeling and that pleasure. And while she thought of this memory, there, on that cold march Berliner night, she started feel the sun on her skin. She could feel her father's hand holding hers. She could feel the same safety only children can, when they are open to everything and are willing to try whatever they see in front of them. She felt it all. Even if only for a few seconds, she felt it all. And then she also felt that the ball on her hands was as light as a Ping-Pong ball.
She opened her eyes and saw her friend looking at her with a smile.
- So? Can you do it? - He asked her hopefully.
- Yes! - She said with a triumphantly smile - I can! - And she threw the lead ball to the air, as if it was a simple Ping-Pong ball - This is so amazing! Can we do it with anything? - She asked, while playing with her new toy.
- Well, almost anything, girl. Almost anything...  - he explained - I think that it is possible to transform anything heavy into a lighter version, you know? But do we need this? I mean, do we want to have only light things? I don't think so... There are things that must be heavy, otherwise they will fly away... You know what I mean?
- That makes sense... - she answered
- But the important thing is that now you know that you have this power in you... And you decide when to use this.
She hugged him on a weird way, since they were both still sitting on the ground. They almost fell down. He was caught off guard, so he dropped his beer bottle.
- Hey come on! Let's not waste beer - he said as he reached for it on the ground.
- Oh, thank you! Thank you so much for this talk - she said as she handed him back the ball back.
- No worries, girl. No worries. And keep the ball. It is a Geschenk.


For Anne Marie. My good friend. 

Portuguese version

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Excellency




- Yes.
- Hello... Uh... Good morning...
- ...
- ...
- May I help you?!
- I am sorry, I would like to speak to His Excellency, Justice Brito Couto.
- This is him. What is this about?
- I apologize, Sir, I am from the Student's Union of the Law School... From the University of Brasilia... We are organizing a Conference about Constitutional Law and...
- Is this an invitation? Would you please tell me when is this event?
- Oh, sorry, we are still not sure, but it could be in March.
- How come you are not sure?
- It is just that, we are willing to adequate ourselves to fit our speakers' needs.
- I understand... And what is this Conference about?
- Fiscal Law at the Supreme Court. We... We'd like to discuss your legacy at the Jurisprudence of the Court...
- I see... My young man, I have a relationship of profound admiration towards the University of Brasilia. But I will have to take a look at this invitation with care. Please send me the program, would you? With all the dates, time, other guests... And I will give you an answer as soon as possible.
- This will be great, Your Excellency. What is your e-mail?
- No, I do not work with that. Please have it delivered here at my place.
- I'm sorry?
- Send it to my home. I am retired now, so I do not have an office anymore.
- What do you mean? By post?
- I don't care how! Look, you will make me a proper invitation on a nice sheet of paper. Then you will put it in a nice envelope and have it delivered here! At my house! I do not care if you use the post, an office boy or if you deliver it yourself...
- Yes. I am sorry.
- Young people these days... Frankly...
- I am sorry, Sir. Could you give me your address?
- Oh, yes... Only a minute, please. Martha! What is our address again?
- ...
- Just write it down... SQS 312... Martha! What is it? Could you tell me our address? Martha! Would you wait for just a second? My wife is not around... Martha! And the Court does not provide us with any staff... It is unbelievable! When you are working you are so important... So requested all the time! Martha! But then you retire and you become no one! The Court does not provide us any driver or secretary or even a car! Nothing! Martha! Wait for just a second, I will be right back.
- No worries. I wait here...
(...)
- Here it is: SQS 212! Please note that it wasn't 312, but 212... Building V, apartment 402. Maybe you need the Zip code also? Write it down 77049-003.
- ...003. Done, Your Excellency! Look, I am very grateful for your attention and patience. We will work on the best program and send you properly. Then we will wait anxiously for your answer.
- Alright, I thank you too.
- Thank you, Sir. Have a great day!
- You too, young man.

His Excellency hang up the phone and looked around. His home was back to its usual silence. He walked back to his living room and sat at the sofa. Turned on the TV and started watching a morning show about health style eating. He looked carefully around, just to make sure he was not being watched... "Martha..." Nothing. So he put his hand inside the inner pocket of his sweater and took one of the chocolates he had smuggled earlier, against the diet his Doctor had prescribed. And he ate it while watching a young lady teaching how to bake the best diet chocolate cake in the world.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Excelência





- Sim.
- Alô... Er... Bom dia
- ...
- ...
- Pois não?!
- Desculpe, eu gostaria de falar com o Excelentíssimo Senhor Ministro Brito Couto.
- É ele quem fala. Do que se trata?
- Desculpe, senhor, sou do centro estudantil da Faculdade de Direito da UnB e estamos organizando uma Conferência sobre Direito Constitucional e...
- É convite? O senhor pode me informar pra quando é?
- Ainda não temos certeza mas será em março.
- Mas como assim não tem certeza?
- É que queremos nos adequar as possibilidades dos convidados.
- Entendo... E sobre o que é a conferencia?
- Sobre Direito Tributário na Jurisprudência da Suprema Corte. Gostaríamos de discutir sua importância nos julgamentos e como o Vossa Excelência enxerga a influência do seu legado nos dias de hoje...
- Veja bem. Eu tenho uma relação de profunda admiração com a Universidade de Brasília. Envie-me a programação com os horários e eu lhe dou resposta assim que puder.
- Tudo bem,  Excelência. Qual o seu e-mail?
- Não, eu não trabalho com isso. Envie pra minha casa.
- Como?
- Envie pra casa, senhor.
- Por correio?
- Não me importa como! Olhe, o senhor pega um papel escreva um convite adequado, com os detalhes e coloque em um envelope e entregue em minha casa! Por correio, Office Boy ou o senhor pode mesmo vir aqui entregar os detalhes. A mim pouco importa como...
- Ah sim. Desculpe.
- Vocês jovens de hoje... Francamente...
- Desculpe. O senhor poderia me dar o seu endereço?
- Um minuto só... Marta! Qual o nosso endereço?
- ...
- Vai anotando aí... SQS 312... Marta! Qual o endereço daqui? Um minutinho, sim? Minha esposa não está por perto. Marta! E o Tribunal não nos dá nenhum assessor. Quando trabalhamos somos tão requisitados! Todos em nossa volta. Marta! Mas depois a gente se aposenta e fica esquecido. Sem motorista, sem secretária, nada. Mar... Um minutinho, que eu já volto.
- Sem problemas, eu aguardo...
(...)
- Aqui está: SQS 212! Veja que não era 312, mas 212... Bloco V, apartamento 402. O CEP também é importante. Anote aí 77049-003.
- ...003. Anotado, Excelência. Olha, muito obrigado pela atenção e paciência. Faremos o convite propriamente e aguardaremos ansiosos pela sua resposta.
- Sim, eu agradeço.
- Obrigado o senhor, Excelência. Tenha um bom dia!
- O senhor também. Passar bem.

Desligou o telefone e olhou em volta. A casa retornava ao silêncio. Voltou para a sala e se acomodou em seu sofá. Continuou assistindo o programa matinal que ensinava receitas e dicas de saúde. Olhou novamente em sua volta para conferir se estava sozinho. "Marta!" Nada... Pegou um dos chocolates Bis que guardava escondidos no bolso de sua jaqueta, e comeu, enquanto escutava a receita de um novo bolo de chocolate.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O que não disse





Depois de um tempo aqui no Brasil, a vida finalmente encontrou seu ritmo. Acordo num determinado horário. Como, almoço, faço o lanche da tarde... Passeio com o cachorro, vejo amigos e deito em frente à televisão. Durmo. As coisas se repetem num ritmo que me embala e me faz sentir-me em casa.
Além de a vida ter encontrado seu ritmo, eu também encontrei muitas coisas por aqui. Encontrei inúmeros cadernos de 10 anos atrás que eu guardava. Estavam lá, parados, do lado de um bolo de notas fiscais de 7 anos atrás. Ambos esperando, sem sentido. Encontrei cartinhas de possíveis namoradinhas da quinta, sexta, sétima série. Todas casadas hoje. Encontrei documentos de estágio, documentos de vestibular, documentos de nem-sei-o-que. Acho que revirei tanta coisa, que reencontrei até minhas alergias, há muito esquecidas. Mesmo entre um espirro e outro, eu gosto de rever coisas antigas. Algumas se revelam inúteis e vão pro lixo. Outras a gente decide esperar mais cinco anos antes de jogar fora. E outras ficam. Guardadas.
Mas eu não fiquei só encontrando boletos bancários de curso de francês de 2007 não. Nesses dias tenho reencontrado muita gente. Muitos amigos. E quer saber? A vantagem é que as amizades não ficam esquecidas em uma gaveta, paralisadas, acumulando poeira. Cada um dos amigos que revi continuou sua vida, com novas conquistas e desafios, novos cabelos e novas barbas. Fiquei feliz de me reencontrar com eles. De ver que continuavam aqui, despoeirados.

- Oi, Gu! Que bom te ver!
- Thereza! Que gostoso te ver também! Como você está?
- Ai, Gu, tá ótimo, casa nova, casamento...

- Micheli!!! Você está igualzinha!
- Que saudades, Gu! Toma pra você, uma lembrancinha!
- Não precisava, Mi! Obrigado!

- Ai, Paulinha, nossa cara vir pra livraria cultura, né?
- Gu, os vendedores daqui me conhecem pelo nome! Eu e o Rodrigo estamos aqui todo fim-de-semana.

- Gustavo Carneiro! Como assim você não me ligou ainda? Se esqueceu de mim?
- Desculpa, Leo! Nunca me esqueceria de você! Me conte de sua vida! To com saudades...

- Maria. Minha amada Maria. Que saudades que estava de você!
- Guts! Me dá um abraço! - Não dona Mimi! Não foge não.

E a conversa vai pra assuntos leves e novos. A casa nova, o casamento, a festa, o bolo.
A família. O pai que a acompanhou ao casamento. O concurso que vai chamar. A viagem a Recife. A viagem ao Japão. A gravidez. As lembranças de Berlim. Minha vida em Berlim. Berlim. Brasília. Bolha imobiliária. Berlim. Seriedade dos alemães. Brasil. Imagina na Copa?  Facebook. Valesca Popozuda. Convite pra jantar. Risoto. Acarajé. Brownies. 

Conversas. Tão previsíveis e imprevisíveis como elas sempre são. Mas teve algumas coisas que não consegui falar pra Thereza, Leo, Maria... É que existem alguns acontecimentos pequenos que transformam o nosso dia a dia. Que nos fazem sentir como parte de um lugar. Que se apresentam a nós e nos conquistam, mas continuam seu caminho, sem parar pra nos dar mais encantamento. Compartilho, então, o que não disse.


Passei natal em uma pequena vila de 600 habitantes, perto de Bonn. Enquanto passeava, pude ver cabeças nas janelas me analisando. Na semana do Natal a única loja da cidade estava fechada. Não pude comprar nada de comida pra colaborar na casa da minha anfitriã, o que me deixou um pouco constrangido. Mas fui acolhido numa autêntica ceia de Natal alemã. Dei um Mickey de presente pros sobrinhos dela, que não deram a mínima. Só queriam ler os livros que o avô tinha dado.


Em janeiro voltei de Barcelona para uma Berlim bem escura e fria. Um dia, ao ir pra escola, peguei meu primeiro engarrafamento em terras alemãs. Estava em um ônibus lotado. Desses que não deixariam nenhum ônibus brasileiro com vergonha em termos de passageiros por metro quadrado. Enquanto esperava 10, 20, 30 minutos, comecei a me sentir sufocado. Estava sufocado não pelo pouco espaço que eu tinha pra me mover ou pelo ar viciado partilhado por tanta gente. O que me sufocou foi o silêncio denso que fazia naquele ônibus. Eu senti vontade de gritar, pois não é natural que 60 pessoas permaneçam 30 minutos em silêncio daquele jeito.



No verão trabalhei na Allversity, uma companhia de internet iniciante aqui de Berlim. A inauguração do nosso site foi feito a poucos quarteirões da minha casa. Me vesti e fui pra lá a pé. Ah, sim, é importante dizer que a festa aconteceu na semana mais quente que vivi em Berlim. Já tinha uns 4 ou 5 dias que a cidade estava abafada. Ninguém estava aguentando fazer nada. Pois bem. Depois de umas 5 horas de festa, começou a chover. Chuva forte, com gotas grossas. O instinto natural de todos que estavam na rua foi entrar na casa, para se proteger da chuva. Mas em poucos minutos os convidados da festa conseguiram ver que dentre as gotas pesadas havia um grupo de pessoas leves, dançando e cantando, como se fossem criança. Eu era um deles.


Por volta de Abril, o sol saiu e todos começaram a aproveitá-lo. Um dia aproveitei e fui estudar no parque que tem perto de casa. Cheguei e estendi minha toalha. Peguei meu texto e comecei a ler. Ao fundo escutava uma criança rindo, brincando com o pai. Perto de mim via um adolescente jogando frisbee pro cachorro. Foi gostoso estar ao ar livre. Mas o melhor foi que, deitadinho no chão, consegui olhar rente à grama e ver que haviam várias flores no campo, dessas que parecem erva daninha, sabe? Eram rasteirinhas e com pétalas brancas e curtas. Pois bem, junto dessas flores tinha, no parque todo, inúmeras abelhas trabalhando em minha volta. Cada uma prestando atenção no seu pólen. Percebi que tinha um mundo inteirinho acontecendo à minha volta. E eu voltei a ler meus textos.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Anestesia






“Pode entrar e se preparar para a cirurgia. É só vestir a camisola e se deitar. Em cinco minutos volto pra aplicar a anestesia”.
“Obrigado”.
Ela fechou a porta e deixou Paulo sozinho. Ele examinou o recinto. A sala era fria e branca. Tirou sua roupa, vestiu sua camisola e ficou sentado na beirada da maca. Olhou em volta, tentando achar algum objeto para focar sua atenção. Mas não obteve êxito.
Pensou no Pedro. Pensou nele, da mesma forma como tinha feito nos últimos seis meses. Desde que terminaram, ele não conseguia tirar Pedro de sua cabeça. Na verdade, Pedro estava mais presente no seu dia a dia do que quando estavam juntos. Era sua companhia pro café da manha e pro jantar. Quando Paulo tomava banho, Pedro lhe assistia. Quando Paulo passeava com o cachorro, Pedro o seguia. Quando Paulo tentava trabalhar, Pedro decidia lembrá-lo de todos os aspectos do relacionamento que tinham causado o termino. Até mesmo quando dormia Pedro era tudo que existia em sua mente.
Os amigos diziam que isso ia passar. Era só ter paciência. Um dia passaria. Mas Paulo sabia que com ele era diferente. Isso não era apenas uma dor de cotovelo.
Por suspeitar ser algo físico, Paulo havia ido ao médico semanas atrás. O doutor, após escutar o relato, pediu vários exames e constatou. Pedro havia se transformado em um tumor. Um tumor no cérebro de Paulo, para ser mais exato. E o interessante é que esse tumor estava em uma área de seu cérebro que, segundo o doutor garantiu, era a responsável pelos pensamentos imediatos.
“Então, pode ser isso que tem me causado o pensamento fixo no Pedro, Doutor?”
“Olha, não quero fazer uma afirmação tão forte, mas… sim. Penso que se retirarmos o tumor, você estará livre para voltar a se preocupar com as coisas ordinárias do dia a dia…”
“Então, quer dizer que ficarei com raiva do trânsito de novo? E… e acharei graça nas piadas sem graça que meus amigos me contam na mesa do bar?” perguntou esperançoso.
“Precisamente. Tenho minhas apostas de que, com a retirada do tumor, você poderá ter as preocupações mais comezinhas da vida. Sem Pedro”
“Então, Doutor, eu preciso fazer essa cirurgia” concluiu Paulo melancolicamente.
“Que bom que se decidiu tão prontamente, rapaz. Mas, antes não quer ouvir dos riscos? Ou compreender como se deu a formação do tumor?”
“Ah sim, claro.”
“Pois bem, quando você e Pedro terminaram, você passou por um trauma muito forte. Seu cérebro, então, fugiu da dor e do sentimento ruim que isso causava. Foi aí que, como um mecanismo de defesa, seu cérebro realocou todas as células que guardavam essas memórias  específicas em um só local. E as isolou.”
“Nunca escutei nada parecido.”
“Eu já tinha lido sobre isso, mas nunca havia realmente tido um caso deste em meu consultório. Na verdade, é mais comum do que se imagina. Pode acontecer com qualquer um. Por isso que conseguimos ver pessoas que amaram intensamente, mas que deixam de amar de uma hora pra outra. O cérebro delas faz esse mesmo procedimento. Mas geralmente isso não causa o tumor. E sem tumor, ninguém se preocupa em analisar isso…”
“E porque o senhor acha que isso aconteceu comigo?”
“Não sei dizer ao certo. Mas talvez você tenha muitas memórias boas – estas ocupam muito mais espaço do que as ruins. Ou talvez o seu cérebro tenha entendido essas lembranças como muito relevantes. Isso é o que as pessoas costumam chamar de ‘um grande amor’. O interessante no seu caso, é que houve uma ‘rebelião’ dessas células. Elas saíram do casulo e foram se multiplicando. Se multiplicando justamente na área do seu pensamento imediato. É por isso que ele, o Pedro, está em todos os seus pensamentos.”
Paulo ficou quieto. Tentava digerir aquelas informações novas.
“Está tudo bem?” Perguntou o doutor, um pouco preocupado.
“Sim, claro... Acredito, então, que essa cirurgia é minha melhor opção”
“Pois é. Tenho que falar sobre a contraindicação, ou melhor, os efeitos colaterais dessa cirurgia. Lembra-se como expliquei ao senhor sobre o ajuntamento das células que guardavam as memórias do Pedro que o seu cérebro fez?”
“Sim. O que tem?”
“Isso significa que todas as suas lembranças do Pedro estão reunidas no tumor.”
“Não compreendo bem…”
“Isso quer dizer que, ao remover o tumor, removeremos as memórias do Pedro da sua vida. Em última instância removeremos ele inteiramente de sua memória.”
“Não me lembrarei dele? Como se fosse apagado da minha vida?”
“Exatamente. O apagaremos da sua vida. Mas lembre-se: a literatura médica indica que você poderá seguir com sua vida logo após a cirurgia.”
Paulo permaneceu quieto, com uma expressão quase solene.
“Preciso pensar sobre isso, doutor. Posso ligar em alguns dias com a resposta?”
“Fique à vontade.”
Paulo foi pra casa e tentou pensar no assunto. No entanto, Pedro povoava todos seus pensamentos. Qualquer filme que assistia lhe lembrava de Pedro. Qualquer conversa com seus amigos tinha Pedro como principal assunto. Nada que ele fizesse lhe ajudava em ter uma mente mais calma para pensar sobre a sua decisão.
Ante a impossibilidade de pensar, compreendeu que a única opção viável seria fazer a cirurgia. Foi obrigado a isso, para seguir em frente e continuar com sua vida.
“Posso entrar?” perguntou a enfermeira do outro lado da porta.
Paulo permaneceu quieto. Silenciosamente pensando em Pedro.
Ela abriu a porta e perguntou “O senhor já esta pronto?”
“Sim.”
O médico entrou e começou a lavar suas mãos. Paulo olhava pela janela, enquanto a enfermeira limpava seu braço com álcool. O dia estava nublado e o céu estava branco. Bem parecido com o dia em que eles se conheceram, há três anos. Depois do álcool veio a agulha. Doeu um pouco.
“Por favor, Senhor Paulo, conte de dez a um em voz alta.”
“Dez, nove, oito, sete, seis…”
E finalmente descansou em paz.