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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Azul





Era difícil. Um desafio como nunca antes tinha enfrentado. Eu sabia que naquela quinta não teria jeito. Ela não ia acreditar nas minhas desculpas. É que eu já tinha dito algumas vezes que estava doente e que não podia ir.
E como isso fez você se sentir?
Era como se eu tivesse um destino. Algo inevitável. Uma condenação.
Prossiga.
Eu cheguei, me troquei e fui. Todos me olhavam. Eu sentia isso, que todos me olhavam. Por eu ter faltado os dias anteriores, não tinha aprendido com todo mundo. Eu teria que dar meu primeiro salto na frente de todos. Eu, sem nunca ter saltado, não tinha como escapar.
E como foi?
A gente tinha aula normal e guardava a última meia hora pra ir pra piscina funda. Lá que tinham os trampolins. As crianças subiam no trampolim, enfileiradas. Não tinha como ir pra trás. Uma vez na fila, subindo a escada, não tinha como ir pra trás. Todo mundo subia e pulava. Fazia frio, por causa do vento, e todo mundo preferia pular rápido pra estar de volta na água. No quente da água.
Sim...
Me lembro que via cada um pulando. Cada pulo significava um a menos. Eu sentia frio na barriga, mãos geladas. Queria sair correndo. Queria me esconder. Chegou minha vez e eu fui. Fiquei na borda. Coloquei meus pés, com os dedos pra fora. O vento me fazia tremer, com os pelos arrepiados. Eu vi que minha mãe estava na grade da piscina. Ela sorria. O professor falava algumas coisas, mas eu não escutava. A criança que tinha pulado antes de mim já tinha nadado pra longe.
E então?
Lá em baixo era só azul. Só azul. Eu não conseguia. O medo era demais, não conseguia pular. Todos os olhos em mim e eu não conseguia pular.
O quê aconteceu?
Fui pra casa e nunca mais voltei pra aula. Nunca mais.


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Excelência





- Sim.
- Alô... Er... Bom dia
- ...
- ...
- Pois não?!
- Desculpe, eu gostaria de falar com o Excelentíssimo Senhor Ministro Brito Couto.
- É ele quem fala. Do que se trata?
- Desculpe, senhor, sou do centro estudantil da Faculdade de Direito da UnB e estamos organizando uma Conferência sobre Direito Constitucional e...
- É convite? O senhor pode me informar pra quando é?
- Ainda não temos certeza mas será em março.
- Mas como assim não tem certeza?
- É que queremos nos adequar as possibilidades dos convidados.
- Entendo... E sobre o que é a conferencia?
- Sobre Direito Tributário na Jurisprudência da Suprema Corte. Gostaríamos de discutir sua importância nos julgamentos e como o Vossa Excelência enxerga a influência do seu legado nos dias de hoje...
- Veja bem. Eu tenho uma relação de profunda admiração com a Universidade de Brasília. Envie-me a programação com os horários e eu lhe dou resposta assim que puder.
- Tudo bem,  Excelência. Qual o seu e-mail?
- Não, eu não trabalho com isso. Envie pra minha casa.
- Como?
- Envie pra casa, senhor.
- Por correio?
- Não me importa como! Olhe, o senhor pega um papel escreva um convite adequado, com os detalhes e coloque em um envelope e entregue em minha casa! Por correio, Office Boy ou o senhor pode mesmo vir aqui entregar os detalhes. A mim pouco importa como...
- Ah sim. Desculpe.
- Vocês jovens de hoje... Francamente...
- Desculpe. O senhor poderia me dar o seu endereço?
- Um minuto só... Marta! Qual o nosso endereço?
- ...
- Vai anotando aí... SQS 312... Marta! Qual o endereço daqui? Um minutinho, sim? Minha esposa não está por perto. Marta! E o Tribunal não nos dá nenhum assessor. Quando trabalhamos somos tão requisitados! Todos em nossa volta. Marta! Mas depois a gente se aposenta e fica esquecido. Sem motorista, sem secretária, nada. Mar... Um minutinho, que eu já volto.
- Sem problemas, eu aguardo...
(...)
- Aqui está: SQS 212! Veja que não era 312, mas 212... Bloco V, apartamento 402. O CEP também é importante. Anote aí 77049-003.
- ...003. Anotado, Excelência. Olha, muito obrigado pela atenção e paciência. Faremos o convite propriamente e aguardaremos ansiosos pela sua resposta.
- Sim, eu agradeço.
- Obrigado o senhor, Excelência. Tenha um bom dia!
- O senhor também. Passar bem.

Desligou o telefone e olhou em volta. A casa retornava ao silêncio. Voltou para a sala e se acomodou em seu sofá. Continuou assistindo o programa matinal que ensinava receitas e dicas de saúde. Olhou novamente em sua volta para conferir se estava sozinho. "Marta!" Nada... Pegou um dos chocolates Bis que guardava escondidos no bolso de sua jaqueta, e comeu, enquanto escutava a receita de um novo bolo de chocolate.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O que não disse





Depois de um tempo aqui no Brasil, a vida finalmente encontrou seu ritmo. Acordo num determinado horário. Como, almoço, faço o lanche da tarde... Passeio com o cachorro, vejo amigos e deito em frente à televisão. Durmo. As coisas se repetem num ritmo que me embala e me faz sentir-me em casa.
Além de a vida ter encontrado seu ritmo, eu também encontrei muitas coisas por aqui. Encontrei inúmeros cadernos de 10 anos atrás que eu guardava. Estavam lá, parados, do lado de um bolo de notas fiscais de 7 anos atrás. Ambos esperando, sem sentido. Encontrei cartinhas de possíveis namoradinhas da quinta, sexta, sétima série. Todas casadas hoje. Encontrei documentos de estágio, documentos de vestibular, documentos de nem-sei-o-que. Acho que revirei tanta coisa, que reencontrei até minhas alergias, há muito esquecidas. Mesmo entre um espirro e outro, eu gosto de rever coisas antigas. Algumas se revelam inúteis e vão pro lixo. Outras a gente decide esperar mais cinco anos antes de jogar fora. E outras ficam. Guardadas.
Mas eu não fiquei só encontrando boletos bancários de curso de francês de 2007 não. Nesses dias tenho reencontrado muita gente. Muitos amigos. E quer saber? A vantagem é que as amizades não ficam esquecidas em uma gaveta, paralisadas, acumulando poeira. Cada um dos amigos que revi continuou sua vida, com novas conquistas e desafios, novos cabelos e novas barbas. Fiquei feliz de me reencontrar com eles. De ver que continuavam aqui, despoeirados.

- Oi, Gu! Que bom te ver!
- Thereza! Que gostoso te ver também! Como você está?
- Ai, Gu, tá ótimo, casa nova, casamento...

- Micheli!!! Você está igualzinha!
- Que saudades, Gu! Toma pra você, uma lembrancinha!
- Não precisava, Mi! Obrigado!

- Ai, Paulinha, nossa cara vir pra livraria cultura, né?
- Gu, os vendedores daqui me conhecem pelo nome! Eu e o Rodrigo estamos aqui todo fim-de-semana.

- Gustavo Carneiro! Como assim você não me ligou ainda? Se esqueceu de mim?
- Desculpa, Leo! Nunca me esqueceria de você! Me conte de sua vida! To com saudades...

- Maria. Minha amada Maria. Que saudades que estava de você!
- Guts! Me dá um abraço! - Não dona Mimi! Não foge não.

E a conversa vai pra assuntos leves e novos. A casa nova, o casamento, a festa, o bolo.
A família. O pai que a acompanhou ao casamento. O concurso que vai chamar. A viagem a Recife. A viagem ao Japão. A gravidez. As lembranças de Berlim. Minha vida em Berlim. Berlim. Brasília. Bolha imobiliária. Berlim. Seriedade dos alemães. Brasil. Imagina na Copa?  Facebook. Valesca Popozuda. Convite pra jantar. Risoto. Acarajé. Brownies. 

Conversas. Tão previsíveis e imprevisíveis como elas sempre são. Mas teve algumas coisas que não consegui falar pra Thereza, Leo, Maria... É que existem alguns acontecimentos pequenos que transformam o nosso dia a dia. Que nos fazem sentir como parte de um lugar. Que se apresentam a nós e nos conquistam, mas continuam seu caminho, sem parar pra nos dar mais encantamento. Compartilho, então, o que não disse.


Passei natal em uma pequena vila de 600 habitantes, perto de Bonn. Enquanto passeava, pude ver cabeças nas janelas me analisando. Na semana do Natal a única loja da cidade estava fechada. Não pude comprar nada de comida pra colaborar na casa da minha anfitriã, o que me deixou um pouco constrangido. Mas fui acolhido numa autêntica ceia de Natal alemã. Dei um Mickey de presente pros sobrinhos dela, que não deram a mínima. Só queriam ler os livros que o avô tinha dado.


Em janeiro voltei de Barcelona para uma Berlim bem escura e fria. Um dia, ao ir pra escola, peguei meu primeiro engarrafamento em terras alemãs. Estava em um ônibus lotado. Desses que não deixariam nenhum ônibus brasileiro com vergonha em termos de passageiros por metro quadrado. Enquanto esperava 10, 20, 30 minutos, comecei a me sentir sufocado. Estava sufocado não pelo pouco espaço que eu tinha pra me mover ou pelo ar viciado partilhado por tanta gente. O que me sufocou foi o silêncio denso que fazia naquele ônibus. Eu senti vontade de gritar, pois não é natural que 60 pessoas permaneçam 30 minutos em silêncio daquele jeito.



No verão trabalhei na Allversity, uma companhia de internet iniciante aqui de Berlim. A inauguração do nosso site foi feito a poucos quarteirões da minha casa. Me vesti e fui pra lá a pé. Ah, sim, é importante dizer que a festa aconteceu na semana mais quente que vivi em Berlim. Já tinha uns 4 ou 5 dias que a cidade estava abafada. Ninguém estava aguentando fazer nada. Pois bem. Depois de umas 5 horas de festa, começou a chover. Chuva forte, com gotas grossas. O instinto natural de todos que estavam na rua foi entrar na casa, para se proteger da chuva. Mas em poucos minutos os convidados da festa conseguiram ver que dentre as gotas pesadas havia um grupo de pessoas leves, dançando e cantando, como se fossem criança. Eu era um deles.


Por volta de Abril, o sol saiu e todos começaram a aproveitá-lo. Um dia aproveitei e fui estudar no parque que tem perto de casa. Cheguei e estendi minha toalha. Peguei meu texto e comecei a ler. Ao fundo escutava uma criança rindo, brincando com o pai. Perto de mim via um adolescente jogando frisbee pro cachorro. Foi gostoso estar ao ar livre. Mas o melhor foi que, deitadinho no chão, consegui olhar rente à grama e ver que haviam várias flores no campo, dessas que parecem erva daninha, sabe? Eram rasteirinhas e com pétalas brancas e curtas. Pois bem, junto dessas flores tinha, no parque todo, inúmeras abelhas trabalhando em minha volta. Cada uma prestando atenção no seu pólen. Percebi que tinha um mundo inteirinho acontecendo à minha volta. E eu voltei a ler meus textos.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Anestesia






“Pode entrar e se preparar para a cirurgia. É só vestir a camisola e se deitar. Em cinco minutos volto pra aplicar a anestesia”.
“Obrigado”.
Ela fechou a porta e deixou Paulo sozinho. Ele examinou o recinto. A sala era fria e branca. Tirou sua roupa, vestiu sua camisola e ficou sentado na beirada da maca. Olhou em volta, tentando achar algum objeto para focar sua atenção. Mas não obteve êxito.
Pensou no Pedro. Pensou nele, da mesma forma como tinha feito nos últimos seis meses. Desde que terminaram, ele não conseguia tirar Pedro de sua cabeça. Na verdade, Pedro estava mais presente no seu dia a dia do que quando estavam juntos. Era sua companhia pro café da manha e pro jantar. Quando Paulo tomava banho, Pedro lhe assistia. Quando Paulo passeava com o cachorro, Pedro o seguia. Quando Paulo tentava trabalhar, Pedro decidia lembrá-lo de todos os aspectos do relacionamento que tinham causado o termino. Até mesmo quando dormia Pedro era tudo que existia em sua mente.
Os amigos diziam que isso ia passar. Era só ter paciência. Um dia passaria. Mas Paulo sabia que com ele era diferente. Isso não era apenas uma dor de cotovelo.
Por suspeitar ser algo físico, Paulo havia ido ao médico semanas atrás. O doutor, após escutar o relato, pediu vários exames e constatou. Pedro havia se transformado em um tumor. Um tumor no cérebro de Paulo, para ser mais exato. E o interessante é que esse tumor estava em uma área de seu cérebro que, segundo o doutor garantiu, era a responsável pelos pensamentos imediatos.
“Então, pode ser isso que tem me causado o pensamento fixo no Pedro, Doutor?”
“Olha, não quero fazer uma afirmação tão forte, mas… sim. Penso que se retirarmos o tumor, você estará livre para voltar a se preocupar com as coisas ordinárias do dia a dia…”
“Então, quer dizer que ficarei com raiva do trânsito de novo? E… e acharei graça nas piadas sem graça que meus amigos me contam na mesa do bar?” perguntou esperançoso.
“Precisamente. Tenho minhas apostas de que, com a retirada do tumor, você poderá ter as preocupações mais comezinhas da vida. Sem Pedro”
“Então, Doutor, eu preciso fazer essa cirurgia” concluiu Paulo melancolicamente.
“Que bom que se decidiu tão prontamente, rapaz. Mas, antes não quer ouvir dos riscos? Ou compreender como se deu a formação do tumor?”
“Ah sim, claro.”
“Pois bem, quando você e Pedro terminaram, você passou por um trauma muito forte. Seu cérebro, então, fugiu da dor e do sentimento ruim que isso causava. Foi aí que, como um mecanismo de defesa, seu cérebro realocou todas as células que guardavam essas memórias  específicas em um só local. E as isolou.”
“Nunca escutei nada parecido.”
“Eu já tinha lido sobre isso, mas nunca havia realmente tido um caso deste em meu consultório. Na verdade, é mais comum do que se imagina. Pode acontecer com qualquer um. Por isso que conseguimos ver pessoas que amaram intensamente, mas que deixam de amar de uma hora pra outra. O cérebro delas faz esse mesmo procedimento. Mas geralmente isso não causa o tumor. E sem tumor, ninguém se preocupa em analisar isso…”
“E porque o senhor acha que isso aconteceu comigo?”
“Não sei dizer ao certo. Mas talvez você tenha muitas memórias boas – estas ocupam muito mais espaço do que as ruins. Ou talvez o seu cérebro tenha entendido essas lembranças como muito relevantes. Isso é o que as pessoas costumam chamar de ‘um grande amor’. O interessante no seu caso, é que houve uma ‘rebelião’ dessas células. Elas saíram do casulo e foram se multiplicando. Se multiplicando justamente na área do seu pensamento imediato. É por isso que ele, o Pedro, está em todos os seus pensamentos.”
Paulo ficou quieto. Tentava digerir aquelas informações novas.
“Está tudo bem?” Perguntou o doutor, um pouco preocupado.
“Sim, claro... Acredito, então, que essa cirurgia é minha melhor opção”
“Pois é. Tenho que falar sobre a contraindicação, ou melhor, os efeitos colaterais dessa cirurgia. Lembra-se como expliquei ao senhor sobre o ajuntamento das células que guardavam as memórias do Pedro que o seu cérebro fez?”
“Sim. O que tem?”
“Isso significa que todas as suas lembranças do Pedro estão reunidas no tumor.”
“Não compreendo bem…”
“Isso quer dizer que, ao remover o tumor, removeremos as memórias do Pedro da sua vida. Em última instância removeremos ele inteiramente de sua memória.”
“Não me lembrarei dele? Como se fosse apagado da minha vida?”
“Exatamente. O apagaremos da sua vida. Mas lembre-se: a literatura médica indica que você poderá seguir com sua vida logo após a cirurgia.”
Paulo permaneceu quieto, com uma expressão quase solene.
“Preciso pensar sobre isso, doutor. Posso ligar em alguns dias com a resposta?”
“Fique à vontade.”
Paulo foi pra casa e tentou pensar no assunto. No entanto, Pedro povoava todos seus pensamentos. Qualquer filme que assistia lhe lembrava de Pedro. Qualquer conversa com seus amigos tinha Pedro como principal assunto. Nada que ele fizesse lhe ajudava em ter uma mente mais calma para pensar sobre a sua decisão.
Ante a impossibilidade de pensar, compreendeu que a única opção viável seria fazer a cirurgia. Foi obrigado a isso, para seguir em frente e continuar com sua vida.
“Posso entrar?” perguntou a enfermeira do outro lado da porta.
Paulo permaneceu quieto. Silenciosamente pensando em Pedro.
Ela abriu a porta e perguntou “O senhor já esta pronto?”
“Sim.”
O médico entrou e começou a lavar suas mãos. Paulo olhava pela janela, enquanto a enfermeira limpava seu braço com álcool. O dia estava nublado e o céu estava branco. Bem parecido com o dia em que eles se conheceram, há três anos. Depois do álcool veio a agulha. Doeu um pouco.
“Por favor, Senhor Paulo, conte de dez a um em voz alta.”
“Dez, nove, oito, sete, seis…”
E finalmente descansou em paz.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Café da manhã





Hoje o dia está frio. Foi uma dificuldade pra sair da cama, mas consegui. Agora estou sozinho na cozinha, aproveitando a solidão matinal. Acabo de passar um café fresquinho. Seu cheiro forte inunda a cozinha e me ajuda a acordar pra mais um dia. Sabe, é essa minha parte preferida do café: seu cheiro. É que, segurando a caneca de café preto e sentindo seu calor em minhas mãos, seu cheiro me inunda. Cheiro da cozinha lá de casa, no Brasil distante. Cheiro da pausa pro cafezinho do trabalho. Cheiro de “só mais 5 minutinhos, mãe, que eu já eu levanto pra ir pra escola”.
Antes do primeiro gole, olho dentro da caneca e me deparo com minha segunda parte preferida do café: sua cor. Correndo o risco de me tornar ridículo, vou compartilhar com vocês um segredo: o negro do café me fascina. Longe de ser o negro artificial de uma Coca-Cola, com suas bolhas agitadiças, o café não. O café fica quieto, deixando uma pequena névoa se desprender de sua superfície, me aguardando. Miro para o misterioso círculo negro dentro de minha caneca, mas ele não se intimida. Me olha de volta no fundo dos olhos, como que me desafiando: você vai encarar o desconhecido? Você vai enfrentar mais um dia, com todos seus desafios? Tento protestar, mar ele não fala mais nada. Apenas permanece me encarando. Como geralmente acontece nesses pequenos duelos de olhares, sempre ha um vencedor e um perdedor. E eu me dou por vencido, desviando meu olhar. Fecho os olhos pra aguçar meu olfato, mas então, ao invés de desaparecer, a negritude se agiganta, saindo dos limites da caneca e tornando-se a imensidão dos olhos fechados. Fora de mim já existe a manhã, mas o café me acorda pra lembrar que a noite voltará.
Enquanto estou de olhos fechados, o cheiro e a negritude brincam com meus sentidos, me levando pra visitar lugares inesperados. O cheiro me puxa pras lembranças diversas. Cores conhecidas, familiares e agradáveis. Mas a negritude me mostra cores nunca antes vistas. De um futuro desconhecido. De um futuro que me deixa maravilhado com sua dureza e beleza. Cores escondidas no desconhecido do negro. Uma jornada que dura apenas um instante, pois abro os olhos e estou de volta em minha cozinha, com sua janela cinza. Do lado de fora um corvo canta triste no céu de Berlim.
E o céu melancólico de Berlim me lembra da minha terceira parte preferida do meu café: seu gosto amargo. Deixei de tomar café adoçado faz um tempo já e confesso que não sinto falta mais. Coisa da idade. Com o tempo aprendi que o doce pode ser muito doce. Que não podemos ter céu azul todos os dias. Que não pode existir uma vida de alegrias apenas. Mas também aprendi que está tudo bem. Que o que percebemos como indesejável também traz sua beleza. Que o azedo e o amargo possuem um espaço muito importante em nossos dias. E que seria insuportável conhecer apenas o doce e salgado de tão óbvios que são.
E assim, tomo meu primeiro gole do dia, recebendo esse liquido negro e amargo, que vem carregado de memórias, medos e misteriosas possibilidade.
Bom dia.

terça-feira, 4 de junho de 2013

As cinco linguagens do amor

Você já ouviu falar das cinco linguagens do amor?
Há um tempo atrás, minha irmã me falou sobre esse livro que nos explica que as pessoas se expressam de formas diferentes quando se trata de amor. Olha só, eu não sou o maior fã de livros de auto-ajuda, mas resolvi dar uma chance. E não é que o livro me fez pensar sobre muitas coisas?
O livro é escrito por Gary Chapman, um conselheiro religioso americano. Mas não se preocupe se você não for cristão. Apesar de ser inspirado na Bíblia, ele não é um livro religioso em si. 
Então vamos lá? Como disse, a gente tem diversas formas de se expressar, quando se trata de amor. O livro chama essas diferentes formas de se expressar de “linguagens”, o modo como você coloca pra fora seu sentimento. É também como você reconhece esse sentimento nos outros. Vamos entender melhor falando das cinco linguagens que o livro reconhece?

1) Palavras de afirmação. “Eu te amo”. Tem gente que não se satisfaz enquanto não escuta da outra pessoa essas três palavrinhas mágicas. “Você é muito especial para mim”, “eu gosto muito de você”, “estou tão feliz ao seu lado” também serve.
2) Serviços. Tem gente que adora cuidar do outro. Fazer comida, arrumar o quarto, lavar o carro. Meu pai é assim, sabe. Até eu entender que essa era a forma que ele expressava seu amor por mim, eu simplesmente não dava valor. E depois sofria quando ele não chegava e falava em voz alta “eu te amo, meu filho”.
3) Tempo de qualidade. Há pessoas que simplesmente demandam e oferecem seu bem mais precioso: o tempo. Para essas pessoas, não existe namoro de fim de semana. Como compreender que eu vou ficar cinco dias inteiros sem ver o meu amado? Quanto mais, melhor. E qualidade também! Nada de estar perto do outro o domingo inteiro vendo Faustão. É preciso atenção!
4) Toque. É aqui que eu me encontro! Adoro beijar, abraçar, fazer cosquinhas e simplesmente tocar. Adoro cafuné, chamego. Pra mim essa é a forma mais íntima de se expressar o amor. E a minha preferida.
5) Presentes. A mais incentivada nessa nossa cultura capitalista! Por isso, muitos nem são fluentes nessa linguagem, mas a praticam tanto. E se esquecem que o que interessa não é o objeto presenteado em si, mas a mensagem que ele carrega: o “eu te amo”. Geralmente, quando a pessoa gosta dessa linguagem, pra ela não importa tanto o valor do presente em si, mas sim o ato de dar, de trocar alguma coisa com alguém.
Pois bem, geralmente falamos fluentemente uma ou duas dessas liguagens, o que não quer dizer que não gostamos das outras. Na verdade, quando temos preferência por uma dessas liguagens, nós gostamos de nos expressar por meio dela e também de receber carinho por meio dela. E pra falar a verdade, não há nada de errado com isso... Cada um é cada um. Cada um tem direito a ter suas preferências.
Mas o conhecimento é bom para sabermos compreender melhor nossos amados. Pare pra pensar em quanto desentendimento pode acontecer quando nos “amam” em outra língua… A mensagem pode simplesmente se perder no caminho e aí nós nunca chegaremos a compreendê-la. Será que isso tem acontecido com você? Eu tenho certeza que comigo acontece várias vezes...
Na verdade, acho que todos deveriamos nos tornar poliglotas nas liguagens do amor! <3
Agora me digam o que vocês acham dessas ideias? Faz sentido pra vocês?

Beijos!

domingo, 2 de junho de 2013

Notre amour






– Mas e pra que serve isso? – perguntou o senhor, com seus cabelos grisalhos, à mulher.

– São cadeados, meu amor... – disse ela, enquanto forçava os olhos pra olhar mais adiante procurando pela Catedral de Notre-Dame.

– Isso eu sei, né! Mas por que tantos cadeados nessa ponte?

– Ah, são os casais que fazem isso... É pra ficarem presos um ao outro. Se você vier aqui, prender um cadeado nessa ponte e jogar a chave no rio, o amor fica seguro e os dois ficam juntos pra sempre. Como que amarrados um ao outro – explicou ela sem dar muita atenção a ele, enquanto olhava no mapa.

– Hum... Cadê o nosso cadeado, então? Vou ali comprar um... – disse ele, como que resolvendo um problema prático, que acabava de apresentar-se a ele.

Nesse instante ela parou o que estava fazendo e olhou nos olhos dele:

– Querido, estamos juntos há 40 anos... Dá pra ficar mais amarrado que isso?

Ele sorriu. Deu dois passos na direção dela. Passou a mão em sua cintura, trazendo-a mais pra perto. E a beijou.


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Ao vencedor, as batatas


Berlim, 26 de setembro de 2012

É... Acho que fiz de novo. Comprei novamente o saco de 2 quilos de batatas no supermercado. É que é fica muito mais em conta comprar em maior quantidade, do que comprar apenas alguns. Já sabem o resultado, né? Batata assada. Batata frita. Batata Soutée. Puré de batata. E tanta batata assim se traduz em vários momentos na pia da cozinha descascando batatas. E daí que acho que descascar batatas é uma das coisas mais terapêuticas que existem. Tenho pensado tanto na vida quando estou na pia, descascando batatas. Hoje mesmo parei pra pensar que já estou aqui em Berlim há mais de um mês. E que as minhas aulas já começaram. E que já conheci meus colegas. Pensei em quanta bagagem diferente se encontra na minha sala. Pensei nas histórias de vida que cada um ali trouxe consigo. Como teria sido a infância da moça da Jordânia? E a festa de quinze anos da menina de Singapura? Será que o cara da África do Sul aproveitou a Copa, dois anos atrás? E como vai ser o Natal da moça da Croácia? E aí, pensei em como foi feio quando eu confundi Croácia com Ucrânia. E Romênia com Bulgária. E Colombia com Venezuela. Pensei em como não gostaria que achassem que eu fosse de outro país, quando já tinha me apresentado como brasileiro. Mas essas gafes diplomáticas são inevitáveis, né? O importante é se desculpar e aprender. Não vou tratar com indiferença o diferente. Pelo contrário, cada um na minha sala é um universo em si. E, na verdade, para isso basta ser "outro". Não é preciso vir da Eslováquia ou do México. Até mesmo o outro cara de Brasília, trouxe as suas experiências únicas. Vividas por ele apenas e por mais ninguém.
E foi assim que as batatas me fizeram sentir esse encantamento pelo mundo em meu redor. Antes fossem cebolas. Assim, teria desculpas para chorar. De alegria! 


quarta-feira, 10 de abril de 2013

O Plano B


 

Oi Gente!

Então... Acho que ia ser bom escrever algum tipo de apresentação, né? Então lá vai!
Esse blog é o meu "plano B". Todo mundo deveria ter um plano B, não é? Pelo menos é o que nos dizem... Pois é, o meu plano B era virar escritor.
Mas geralmente a ideia de ter um "plano B" é que primeiro você tem que ter um "plano A". E o seu plano B funciona como o seu "back up", o que você vai usar se o seu plano A não funcionar... Só que o (bom) problema é que eu estou super feliz de ver que o meu plano A tá indo muito bem. E aí, será que isso significa que o meu plano B vai ter que ficar pra trás? Claro que não! Por isso, eu estou começando meu plano B agora! Planos A e B estão sendo feitos ao mesmo tempo! E olha que eu ainda tenho vários outros planos (C, D, e o secreto plano "E", que eu especialmente amo...), e eu vou contar mais deles pra vocês aqui, no meu plano B!
Esse Blog vai juntar minhas duas paixões: escrever e conhecer novas pessoas! E eu vou usar fatos do dia-a-dia como desculpa pra escrever.
Agora vamos fazer algumas apresentações....
Eu sou o Gustavofsc, mas pode me chamar de Gu. Sou brasileiro, de Brasília, e estou atualmente vivendo em Berlim. Isso quer dizer que meu blog vai ser bilíngue. Vou tentar postar sempre em inglês e português.
Basicamente, tudo que você precisa saber sobre mim são alguns fatos importantes: eu amo o cheiro da grama molhada, especialmente quando chove após um longo período de seca. Amo lençois novos na minha cama. A primeira noite depois de trocá-los é sempre a melhor. E eu também amo o calor do sol na minha pele nas manhãs frias. O que eu não gosto é morder as sementes da uva. Também tenho uma especial irritação com o som do meu alarme nos primeiros segundos do dia. Mas se tem uma coisa que pode estragar o meu dia é saber o fim do filme porque alguém me contou!
Acredito que a arte é uma parte essencial da vida. E podemos encontrá-la em quase todos os lugares se ao menos prestarmos a devida atenção.
Sejam bem-vindos ao meu pequeno Plano B. Espero que gostem!

Com carinho,



terça-feira, 9 de abril de 2013

Es ist nur wasser

Berlim, 25 de março de 2013 


 

Então... Um dos problema do inverno está sendo sair de casa. Claro que eu não estou deixando de fazer minhas tarefas diárias. Vou às aulas, faço supermercado, saio com os amigos... Mas tem uma tarefa que eu realmente deixei de lado nos últimos meses: ir à academia. É que quando eu chego cansado em casa, tiro as luvas, os dois casacos e as botas de frio e preparo uma comida quentinha, eu realmente não consigo sair de casa de novo! Aí o que acontece é o seguinte: faço um trato comigo mesmo. Digo "tá bom, Gustavo, hoje você não vai, mas só porque amanhã você vai levantar cedo e ir malhar antes da aula, ok?" Aí eu aceito minha proposta e vou dormir quentinho e sem malhar. Claro que no outro dia eu realmente acordo às 7 da manhã, só pra olhar pra fora, ver a neve, me convencer que vou à academia de noite, e voltar a dormir até um pouco mais tarde... E isso se repetiu por dois meses. Que coisa, né?
Pois bem, semana passada eu finalmente fui à academia. Foi muito bom malhar, ver gente, suar... Já estou preparado pra mais dois meses de sedentarismo (brincadeira!).
Mas o legal aconteceu depois. Quando estava indo da academia pra faculdade, eu peguei um trem. Sentei-me e, ao ver que o lugar ao eu lado estava vazio, coloquei minha sacola com minha roupa da academia no lugar ao meu lado. Agora a primavera bate à porta e já temos o sol novamente. A cidade fica linda... Eu fiquei olhando pela janela, vendo os prédios, os monumentos... E minha mente voou. Nem me lembrei que estava no trem mais. Nem me lembrei das pessoas em minha volta. Sequer tinha consciencia de que estava em Berlim.
E comecei a sentir um quentinho na minha perna. Minha mente não queria dar atenção pra isso, pois se deleitava com as árvores querendo florescer, com as pessoas andando nas ruas, com o sol... Mas finalmente mexi minha sacola de lugar, só pra perceber que ela estava pingando!
Minha mente despencou de seu êxtase para o mundo terreno. Abri a sacola e vi que minha garrafinha dágua estava vazia. E minha roupa, toalha e tênis estavam encharcados. Sem contar que o assento e a minha calça também estavam molhados.
E foi isso. Só isso bastou pra me deixar com raiva e vergonha ao mesmo tempo! Fechei minha cara e me esqueci do sol, dos sorrisos, das árvores florescendo... Só pensava na minha calça molhada, nas pessoas me olhando na rua tentando decifrar que líquido era aquele... No frio que iria sentir. E, claro, no que a senhora sentada à minha frente pensava da bagunça que eu tinha feito. Ensaiei um olhar de vergonha e desculpas e disse à ela:
- Entschuldigung (Desculpe-me)...
E foi aí que vi pela primeira vez, que ela nem prestava atenção em mim. Sua mente estava longe, bem longe daquele trem. Ela olhou pra mim e me diz:
- Es ist nur wasser... (É só água...). E sorri. Mas um sorriso triste. Como se ela desejasse que seus problemas pudessem ser simples como água. Pudessem evaporar e ir embora.
Aquelas poucas palavras me falaram tudo.
"É só água, continue olhando para as árvores. É só água, vai secar. É só água, e as pessoas continuam sorrindo ao seu redor. É só água, e o sol ainda brilha. É só água, mas um dia será mais do que isso. Então quarde sua raiva, frustração e preocupações para quando não for só água. Mas por enquanto, querido, é só água. Então aproveite o sol, as árvores e as pessoas. Quando não for só água, você vai olhar pra trás e se lembrar dos dias em que suas preocupações eram a calça molhada. Aproveite o sol, as árvores e os sorrisos. Aproveite por mim. Por que, no meu caso, não é só água..."

segunda-feira, 8 de abril de 2013

La Bamba

Hoje acordei um pouco atrasado. E aí é café-da-manhã atropelado, banho correndo, e pouco tempo pra pensar. Corre, corre, corre e finalmente estou sentado no metrô. Agora é só esperar alguns minutinhos pra estar na escola e o meu dia começar a ser produtivo. Acontece que a vida não segue roteiros. E quase diariamente ela teima em começar a ser produtiva antes, bem antes, do planejado.
Hoje eu tava quietinho no meu canto, sentado e escutando a minha música. Era a Cássia Eller, me contando que “quem sabe ela ainda era uma garotinha...”. O trem parou e as portas se abriram. Ninguém entra, ninguém sai. Alguns segundos antes do trem partir novamente um rapaz chega com uma moça numa mão e uma caixa de som na outra. Chegam meio esbaforidos e felizes por terem conseguido entrar. A caixa de som está conectada a um iPod e ele também tem um trompete. Eles se olham e se entendem sem falar nada. Dá o play e começa o show! “Para bailar la bamba!” E vai pro trompete “pananananana”, e de novo “Para bailar la bamba se necesita una poca de gracia...”. A Cássia Eller chega a ficar acanhada no meu ouvido frente à competição... Eu olho pra cima e a moça tá dançando e acompanhando com um chocalho. Ela sorri e eu, sem querer sorrio de volta. Não só eu! Todos no vagão estão empolgados. Batendo pezinho aqui... Sorrindo com os olhos ali... Mas ninguém quer dançar. Sabe porque? Dentro de alguns segundos ele desliga a caixa de som e pega o copinho pra pedir a gorjeta! E ela vai pra um lado do trem e ele pro outro. Infelizmente eu não dou gorjeta nenhuma. Se der, vão ser umas três por dia. Mas sempre tem alguém que contribui.
Um verdadeiro show, você deve estar pensando... Que nada! O show viria alguns segundos mais tarde: a moça volta da sua ronda pelo vagão com um sorriso gigante, de orelha a orelha. Ela segura uma nota verde na sua mão. Isso mesmo! Alguma alma caridosa tinha dado 100 euros de gorjeta! Ela abraça o colega e eles começam a pular! Próxima parada e eles descem do trem e começam a dançar e gritar de felicidade! E os sorrisos, a música e a alegria deles, resultado de um pequeno pedaço de papel, foi uma das coisas mais lindas que eu vi nesses dias de trem. E é bom começar a semana assim. É bom saber que a vida começa a ser produtiva quando ela bem entender.

Baila la bamba... Baila la bamba...