terça-feira, 9 de abril de 2013

Es ist nur wasser

Berlim, 25 de março de 2013 


 

Então... Um dos problema do inverno está sendo sair de casa. Claro que eu não estou deixando de fazer minhas tarefas diárias. Vou às aulas, faço supermercado, saio com os amigos... Mas tem uma tarefa que eu realmente deixei de lado nos últimos meses: ir à academia. É que quando eu chego cansado em casa, tiro as luvas, os dois casacos e as botas de frio e preparo uma comida quentinha, eu realmente não consigo sair de casa de novo! Aí o que acontece é o seguinte: faço um trato comigo mesmo. Digo "tá bom, Gustavo, hoje você não vai, mas só porque amanhã você vai levantar cedo e ir malhar antes da aula, ok?" Aí eu aceito minha proposta e vou dormir quentinho e sem malhar. Claro que no outro dia eu realmente acordo às 7 da manhã, só pra olhar pra fora, ver a neve, me convencer que vou à academia de noite, e voltar a dormir até um pouco mais tarde... E isso se repetiu por dois meses. Que coisa, né?
Pois bem, semana passada eu finalmente fui à academia. Foi muito bom malhar, ver gente, suar... Já estou preparado pra mais dois meses de sedentarismo (brincadeira!).
Mas o legal aconteceu depois. Quando estava indo da academia pra faculdade, eu peguei um trem. Sentei-me e, ao ver que o lugar ao eu lado estava vazio, coloquei minha sacola com minha roupa da academia no lugar ao meu lado. Agora a primavera bate à porta e já temos o sol novamente. A cidade fica linda... Eu fiquei olhando pela janela, vendo os prédios, os monumentos... E minha mente voou. Nem me lembrei que estava no trem mais. Nem me lembrei das pessoas em minha volta. Sequer tinha consciencia de que estava em Berlim.
E comecei a sentir um quentinho na minha perna. Minha mente não queria dar atenção pra isso, pois se deleitava com as árvores querendo florescer, com as pessoas andando nas ruas, com o sol... Mas finalmente mexi minha sacola de lugar, só pra perceber que ela estava pingando!
Minha mente despencou de seu êxtase para o mundo terreno. Abri a sacola e vi que minha garrafinha dágua estava vazia. E minha roupa, toalha e tênis estavam encharcados. Sem contar que o assento e a minha calça também estavam molhados.
E foi isso. Só isso bastou pra me deixar com raiva e vergonha ao mesmo tempo! Fechei minha cara e me esqueci do sol, dos sorrisos, das árvores florescendo... Só pensava na minha calça molhada, nas pessoas me olhando na rua tentando decifrar que líquido era aquele... No frio que iria sentir. E, claro, no que a senhora sentada à minha frente pensava da bagunça que eu tinha feito. Ensaiei um olhar de vergonha e desculpas e disse à ela:
- Entschuldigung (Desculpe-me)...
E foi aí que vi pela primeira vez, que ela nem prestava atenção em mim. Sua mente estava longe, bem longe daquele trem. Ela olhou pra mim e me diz:
- Es ist nur wasser... (É só água...). E sorri. Mas um sorriso triste. Como se ela desejasse que seus problemas pudessem ser simples como água. Pudessem evaporar e ir embora.
Aquelas poucas palavras me falaram tudo.
"É só água, continue olhando para as árvores. É só água, vai secar. É só água, e as pessoas continuam sorrindo ao seu redor. É só água, e o sol ainda brilha. É só água, mas um dia será mais do que isso. Então quarde sua raiva, frustração e preocupações para quando não for só água. Mas por enquanto, querido, é só água. Então aproveite o sol, as árvores e as pessoas. Quando não for só água, você vai olhar pra trás e se lembrar dos dias em que suas preocupações eram a calça molhada. Aproveite o sol, as árvores e os sorrisos. Aproveite por mim. Por que, no meu caso, não é só água..."

2 comentários:

Virna disse...

Coisa linda de se ler! Saudades, Gu :*

Gu disse...

Virna!!! Obrigado pelo carinho! To com saudades também! Beijosss